O leitor, com toda a certeza, já terá recebido de alguma forma esse conselho; e também, com toda a certeza, não terá se esforçado para aplicá-lo devidamente; conclusão: esse é mais um amontoado de palavras que proferimos e/ou escutamos durante nossa vida sem o beneplácito de nossa atenção. Se assim é, qual a vantagem de repeti-lo aqui? Muito simples: não vou repetir o óbvio, mas sim, demonstrar por meio de um exemplo simples (objeto de observação como aprendizado) a importância de observar e aprender.

Estava eu num domingo desses passeando num shopping enorme, observando atentamente o movimento da multidão a transformar o simples ato de comprar num verdadeiro ritual, tentando inutilmente diminuir a distância entre o desejo e a satisfação, ambos inalcançáveis no âmbito da vida moderna. Continuei caminhando, todavia; eis que num determinado momento ganhei o dia: Na porta de uma loja fechada, um mendigo deitado afagava o cão de um casal; o cachorro, da raça Golden, bonito e muito bem cuidado, foi se achegando ao mendigo e deitou-se ao seu lado, visivelmente feliz pelos afagos. Os donos do cachorro eram, pela aparência, pessoas bem situadas socialmente e nada fizeram para afastar o cão de “seu amigo”. Aqui reside, leitor, a razão desta crônica: a finalidade da observação para fins de aprendizado; quantas pessoas tirariam proveito da simples observação, até comum, de um cachorro sentir-se feliz pelos afagos de um mendigo sujo e fedorento? Poucos, com certeza, porque uma das nossas grandes falhas na vida é viver com a atenção esvoaçante, sem prestar atenção ao que ocorre à nossa volta; estamos sempre distantes, pensando no que menos interessa, razão pela qual a vida moderna nos converteu em espectadores de nossa própria vida. Desculpe-me o leitor pela inevitável digressão, mas voltemos ao ponto analisando a diferença de comportamento entre um cão e um ser humano: o primeiro age como nós humanos deveríamos agir (com igualdade): aproxima-se de qualquer um, sem fazer qualquer diferença: para ele, o afago é sempre bem recebido e a recíproca também; não há nenhuma análise prévia para dar e receber afagos: nem cor, nem aparência, nada enfim. Quanto a nós, seres inteligentes, superiores a todos os demais, como vivemos entre os nossos? Quantas análises criamos antes de nos aproximar de alguém? Quando topamos com um coitado na rua, sem eira e nem beira, cheirando mal, que sorri ao nos ver, como nos sentimos? Será que ao menos temos bondade suficiente para ao menos retribuir-lhe o sorriso? Quem faz da observação uma ferramenta de vida, com certeza e naturalmente saberá corresponder-se com o “coitado”. O exemplo é muito pequeno, porém creio que saberemos (se houver boa vontade) estudar a sua importância no nosso viver, pois, ao observar (para aprender, lembre-se) os diferentes aspectos da vida, conseguiremos nos libertar daqueles nós que estrangulam nosso avanço espiritual. Diante dessa realidade, cabe-nos acordar para uma realidade que deveria movimentar de vez nossa vontade para nos conduzir como fazem nossos queridos cães: au, au, au!
Luiz Santantonio
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