Dia desses recebemos um telefonema de uma das filhas de nossa diarista, informando que sua mãe não comparecera ao trabalho por estar acamada, vítima de forte gripe. Pediu, também, que lhe adiantássemos o pagamento para comprar remédios. Confesso que não desconfiei do pedido e, prontamente me prontifiquei em levar o dinheiro, diretamente, à “casa” dela, local já conhecido por nós. O leitor percebeu, com certeza, porque a palavra casa foi aspada (entre aspas). A casa consistia num único cômodo, que reunia tudo o que se encontra em uma casa normal: cozinha, banheiro, quarto, etc.

Por que tanto medo? Essa é a marca de nossa vida neste mundo conturbado onde vivemos. Cercar nossa residência de grades a pretexto de segurança é perfeitamente justificável. O que me importa, na verdade, é a outra grade, a da alma. Explico: Somos criaturas humanas, criadas com absoluta igualdade: irmãos, portanto. Essa, pelo menos é a conversa que anda de boca em boca. Nós não vivemos como iguais; cada qual – pelo atraso espiritual– tem por objetivo número um, resguardar-se ao máximo; conservar sua verdadeira personalidade oculta. Essa maneira de viver enfraquece sobremaneira o conceito de que “somos todos irmãos”.

Esse foi o título de uma reportagem de um jornal, mês passado. Trata-se de um restaurante em Londres, no qual as pessoas fazem suas refeições, completamente, despidas. Não se trata como à primeira vista dá a entender, de um local para jovens rebeldes, ou coisa que o valha, pelo contrário: é frequentado por gente de bom nível social e endinheirada. Há muitos pormenores com relação a certos momentos em que o restaurante exige alguma cobertura para o cliente se movimentar, porém a aventura começa por deixar a roupa pendurada no vestiário, antes de adentrar, nos salões do restaurante.
Se compreender a vida já era difícil, em nossa era a dificuldade atingiu o impossível.

Sonhos são apenas sonhos, e criam esperanças vazias, porém, com um potencial que nos induz a relegar a realidade a um plano secundário. Não sabemos exatamente como esse desvio arraigou-se em nossa civilização, a ponto de muitas pessoas afeiçoarem-se a ele de tal modo que sua vida tornou-se uma perigosa dicotomia oscilante entre sonho e realidade. Essa ansiedade em busca de meios imateriais como forma de vencer situações difíceis que a vida nos apresenta tornou-se o caminho no qual nos assentamos para viver o amanhã, apesar de saber, claramente, que os sonhos são como nuvens que fogem, esfumando-se no éter, sem nos dar nada.

“Tenhamos o coração, a mente, o espírito voltados para o alto”.

Esse comportamento coletivo vivido em razão do desastre com o clube de futebol Chapecoense recentemente, serviu para demonstrar algo que ultimamente quase não se vê: milhares de pessoas ( não apenas parentes dos acidentados) mas pessoas de todos os quadrantes da América se irmanaram como uma verdadeira família abrindo seu coração para consolar seus semelhantes diante de tamanha perda. Durante vários dias milhares de pessoas guardaram luto, como se os desaparecidos pertencessem à própria família; nosso pais ficou num silêncio respeitoso como nunca vi; essa postura deixou-me, a um tempo, triste pelo infausto acontecimento, e feliz pela forma como nosso povo e de nossos vizinhos se comportaram.

Eu, caro leitor, já havia jogado a toalha na questão do Natal. Estava totalmente desencantado com destino que o mundo lhe deu. Teve o mundo (todos nós) o descaramento de apoiar com o melhor de seus sorrisos o enterro do verdadeiro sentido do Natal. Até onde desceu a espiritualidade humana para adubar o progresso avassalador das campanhas publicitárias, no sentido de transformar uma data espiritual em mero balcão de vendas. Os meus sentimentos natalinos, todavia, reviveram ao ser presenteado com um desabafo do Papa Francisco, feito recentemente; diz ele sabiamente: