Sei que o título é meio esquisito, embora no meu caso, tenha sua lógica, como veremos. Depois de certo tempo de vida, comecei a dar sinais de surdez. Ela, uma patologia que decreta, se a pessoa não se cuida, um afastamento da vida social. Gradativamente, tudo se torna difícil, e, quanto aborrecimento causa, por exemplo: confundir três com seis, principalmente, quando se está fazendo um negócio que envolve dinheiro. O leitor, por certo, afirmará que, nos dias de hoje, existem aparelhos auditivos que eliminam boa parte dessa restrição, colocando o “surdo” em condições de viver, normalmente. Tudo bem dirá o leitor, porém, até agora, você, ainda, não escreveu uma única palavra a respeito do título. Não é hora de fazê-lo?

O grande prazer da humanidade nos dias atuais é vangloriar-se do progresso alcançado. Essa ilusão sente prazer em fazer pouco do passado, como se ele fosse uma herança perniciosa. Vamos analisar alguns aspectos do esporte, entre eles, a Olimpíada, que terminou recentemente. O que nos interessa para esta modesta análise, mais do que qualquer coisa, e voltar nosso pensamento para onde? “para o passado”! Então leitor, qual era (ou é?) o objetivo dos jogos olímpicos? Não era esse desespero quase sobre-humano em ganhar medalhas (de ouro, bem entendido, porque o leitor chegou a observar a expressão de descontentamento dos ganhadores da prata e por ainda, do bronze?). Ora, o objetivo dos jogos não era precisamente “ganhar”, mas sim, competir!
No Futebol, p.ex.. a reação do atleta quando faz um gol é desproporcional ao sentido esportivo, como se fosse um herói vencendo um inimigo. Observe-se, que esse tipo de reação ocorre em todos os esportes, até mesmo na olimpíada, quando o atleta, por ex., após vencer uma prova aquática, desfere socos na água da piscina, como quem diz: “eu sou o bom, ouviram?” Essa conduta, cujo sentido é demonstrar superioridade sobre os demais, já faz parte da nossa “evolução”.. E mais: isso nos mostra a forma “moderna” de viver: “-quero passar, saia da frente!”. Ganhar significa apenas uma coisa; ficar em primeiro lugar! Tudo o que restar, do segundo para baixo é totalmente dispensável e não chega a entusiasmar. Tais atitudes são sinais claros da ausência do ultrapassado e hoje inexistente espírito esportivo.
Não poderia concluir esta crônica sem mencionar um lado muito importante no qual se observa com bastante alegria o verdadeiro congraçamento entre os competidores: trata-se da paraolimpíada, competição que reúne pessoas portadoras de deficiências físicas. Ali, acima de tudo, há uma lição importante: são pessoas que à força de duras penas conseguiram libertar-se da imobilidade e partiram para a aventura mais difícil para eles: participar de diferentes modalidades esportivas, todas exigindo deles muito treino e total confiança na própria capacidade. Exemplos que falam por si mesmos; quando os vemos disputando corajosamente as provas não podemos deixar de nos comover e, se estivermos atentos, esmiuçar nossa alma no sentido de utilizar os exemplos desses irmãos para como eles vencer nossas deficiências e partir denodadamente para a vitória.
Eis aí leitor, uma pequena amostra do caminho que o espírito esportivo está trilhando; e o quanto nos entristece observar a humanidade vangloriar-se da qualidade do que chama de progresso. O importante, apesar de tudo, é jamais perder a confiança em nossa espécie: somos obras divinas, razão pela qual, dentro do tempo descobriremos, dentro de nós mesmos, todas as respostas para um caminhar seguro e feliz.


Luiz Santantonio
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O ser humano, apesar da sua imensa vaidade, é a espécie mais controvertida entre toda a Criação. Os animais, dito irracionais, vivem naturalmente de acordo com suas respectivas espécies, sem ser atingidas por essa praga denominada vaidade. Nunca se viu, por exemplo, um tigre branco caminhar com o “nariz em pé” entre os tigres rajados, exibindo-se como se fora superior aos “normais”.

A humanidade, (todos nós) tendo em vista seu despreparo para gerar uma vida condizente com sua natureza espiritual, deixou-se envolver por um pessimismo doentio, como se a ideia absurda de que o mundo caminha para o fim, fosse algo natural. Tal pensamento, todavia, diante do precipício cada vez mais profundo que cavamos com nossas próprias mãos, vai se tornando cada vez mais familiar.

Nós, humanos, somos espertos (?); e, com justa razão, chamados de reis da Criação. Essa esperteza, todavia, tendo em vista nossa insegurança de como viver, caminha em direção contrária aos nossos reais interesses. Se, insistirmos em viver dentro dessa contradição, de que nos vale o orgulho por tudo que chamamos de progresso? Se, de fato o período em que vivemos é de progresso, por que nunca conseguimos ser felizes?

Essa é, com certeza, a mais difícil das perguntas, porque cada pessoa analisa a questão sob seu ponto de vista, ponto esse, profundamente assentado na forma como a interpreta, mas a verdade é que ninguém sabe para que está vivendo, não tem alvo, a não ser o desejo de distanciar-se da insegurança e da solidão. O sofrimento comum é o alheamento de si mesmo, do seu semelhante e da natureza; a percepção de que a vida se escoa como a areia por entre os dedos da mão e que um dia morreremos sem ter vivido, que vivemos no meio da abundância e, contudo, não conhecemos a alegria.